A Casa
Era um edifício antigo, de pedra granítica, sem grande valor estético ou interesse arquitectónico, mas feito do material de que feitos são os sonhos.
Sucessivas gerações, todas com filharada ao jeito alecrim, haviam ampliado uma estrutura central sóbria e transformado a Casa num labirinto encantado, meio trapalhão e muito pouco funcional, de corredores, átrios, varandas, quartos e salas, amiúde desaguando uns nos outros com a única lógica do mais puro efeito surpresa.
Nas enormes férias grandes da infância, os netos tomavam de assalto o forte e eram homéricos jogos de escondidas, batalhas de titãs pelos corredores, túneis escavados por baixo das mesas, grandes aventuras de audazes princesas e valorosos cavaleiros, em intermináveis justas que transbordavam para os jardins em redor, onde um centenário carvalho vestia de navio pirata e o laguito dos patos exibia, revoltoso, ambições oceânicas.
Sôfregos pequenos selvagens, crestados pelo sol do infindável verão, recuperavam forças na comprida cozinha de lajes negras, impregnada do cheiro a pão acabado de fazer, onde, a uma distância respeitosa dos bojudos e fervilhantes caldeirões de tripé assente no lume, os esperavam sempre magníficas regueifas de trigo açucarado, que "borravam" de compota.
Quando a avó, um dia, se deitou para morrer – serenamente, como sempre vivera e depois de cumprir as suas obrigações diárias (era uma mulher meticulosa) – a Casa coube, em partilha, a um tio fútil e perdulário. Breve a vendeu a um casal com meios, que perfilhava legítimo gosto na exibição dos seus fins. Este festejou a aquisição substituindo os elaborados portões de ferro forjado por gigantescas portadas automáticas, ao mais belo estilo Fort Knox… e lacadas!
Hoje estavam abertas para uma qualquer função, deixando ver a Casa em todo o seu esplendor. Está emaciada, aparadas as partes excessivas ao bom uso. Nasceram-lhe duas robustas garagens e uma prendada estufa em alumínio. Orna-lhe agora a fronte um bordo superior de pequenos torreões arroxeados por sobre uma sacada verde-garrafa.
Juro que me olhou com lágrimas nas janelas.
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